Muito além do sorriso: Como a saúde bucal influência no desempenho dos atletas

Uma gengiva inflamada ou um dente do siso impactado podem aumentar a inflamação sistêmica do organismo, afetando recuperação muscular

Muito além do sorriso: Como a saúde bucal influência no desempenho dos atletas

Um cenário esportivo onde cada detalhe pode impactar o desempenho dentro de campo, a saúde bucal passou a ocupar espaço estratégico na preparação de atletas profissionais. Durante grandes competições internacionais, como a Copa do Mundo, cresce a atenção para áreas da saúde que atuam nos bastidores das seleções e a odontologia do esporte é uma delas.

Muito além da estética, a especialidade avalia como inflamações bucais, alterações na mordida e distúrbios como o bruxismo podem interferir diretamente na recuperação muscular, no equilíbrio corporal e até na resistência física dos jogadores. Estudos conduzidos por órgãos reguladores revelam que problemas na cavidade bucal (como focos de infecção ativa ou má oclusão dentária) podem reduzir o rendimento muscular de um esportista de 20% a 30%, além de elevar consideravelmente o risco de lesões articulares e estiramentos devido ao estado inflamatório constante do organismo.

“Uma gengiva inflamada ou um dente do siso impactado não são problemas apenas da boca. Essas infecções podem aumentar a inflamação sistêmica do organismo, afetando recuperação muscular, desempenho físico e até a disponibilidade do atleta durante uma competição.”, explica o Dr. Aguinaldo Garcez, membro da SBOEE - Soc. Bras. de Odontologia do Esporte e do Exercício e professor da São Leopoldo Mandic. Em um torneio curto e de altíssima intensidade como a Copa do Mundo, onde a elite do futebol mundial se reúne, pequenos detalhes podem definir um título e a saúde bucal pode ser este fator de desempate.”

O pioneirismo Brasileiro - De acordo com registros históricos detalhados pela Associação dos Cirurgiões Dentistas da Baixada Santista (ACDBS), o Brasil foi pioneiro mundial ao levar um dentista, o Dr. Mario Trigo, para a Copa do Mundo de 1958, na Suécia. Naquela ocasião, uma avaliação pré-torneio revelou que o elenco sofria com infecções severas, a qual foi tr3atada por uma “revolução bucal” nos bastidores, promovida pelo Dr. Trigo, que extraiu dezenas de dentes com infecções crônicas, que afetavam o desempenho dos jogadores.

O resultado daquele planejamento de saúde bucal pioneiro culminou na conquista do primeiro título mundial da história do país. O dentista seguiu com o grupo nas campanhas vitoriosas de 1962 e 1970, sendo o único dentista tricampeão mundial de futebol.

Os desafios modernos -  Hoje, a Odontologia do Esporte atua na biossegurança e na biomecânica do movimento, bem diferente do passado onde o foco era a eliminação de focos infeciosos. As principais áreas trabalhadas na especialidade que foca nos atletas de elite incluem:

• Equilíbrio Muscular e Oclusão: Conforme divulgado pelo Conselho Federal de Odontologia (CFO), problemas na articulação temporomandibular (ATM) e “encaixe desequilibrado da mordida” afetam diretamente o centro de gravidade, a postura, o equilíbrio dinâmico dos atletas e até sua respiração, gerando assimetrias musculares.
• Prevenção ao Doping: Qualquer prescrição medicamentosa na odontologia para um atleta, seja de atleta profissional ou amador exige precisão absoluta. O uso inadvertido de analgésicos ou anti-inflamatórios que contenham substâncias proibidas pode culminar em punições por doping e desclassificações.
• Protetores Bucais Customizados: Muito além do uso em esportes de combate, protetores individualizados e feitos por scanner digital são utilizados para absorver impactos em choques de cabeça comuns no futebol e para mitigar os efeitos do bruxismo de vigília (o apertamento dos dentes causado pela tensão do jogo).

A presença ativa desses profissionais nas comissões técnicas consagra uma evolução clínica: para chutar com precisão e correr por 90 minutos em alto nível, o ponto de partida do bem-estar começa no sorriso.


Dr. Aguinaldo Garcez, membro da SBOEE - Soc. Bras. de Odontologia do Esporte e do Exercício e professor da São Leopoldo Mandic. São Leopoldo Mandic: Considerada, por 15 anos consecutivos, uma das dez melhores instituições de ensino superior do país segundo o Índice Geral de Cursos (IGC) do MEC.


Publicado em 31/07/2026.

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