As reflexões de Adriana Botelho sobre a mulher: conquistas, avanços e retrocessos

Foi um caminho longo e desafiador, essa luta remonta de nossas avós e bisavós, mulheres fortes e obstinadas. A caminhada continua, a conquista da mulher está sendo construída dia após dia

As reflexões de Adriana Botelho sobre a mulher: conquistas, avanços e retrocessos

As reflexões de Dra. Adriana Botelho, a quem propusemos ponderar e opinar sobre as conquistas da mulher, ao longo da história, os avanços, retrocessos e expectativa para o futuro. Dra. Adriana Botelho construiu uma carreira e trajetória invejável pelo seu dinamismo e amor a profissão. Usou seus dons e capacidades múltiplas para seu toque humanitário em todas as suas atividades: seja no atendimento público ou privado. Protesista e especialista em estratégia em Saúde da Família, acumula experiências, em seus 32 anos de formada, tanto no consultório particular quanto em todos os setores do serviço público na Secretaria da Saúde de Ribeirão Preto. Atualmente, atua como protesista no Núcleo Geral de Atendimento (NGA) dos Campos Elíseos, como membro da Equipe Técnica da Divisão Odontológica.

“É inegável que hoje ocupamos espaços nos diversos cenários da sociedade, mas foi um caminho longo e desafiador que não começou em nossa geração, essa luta remonta de nossas avós e bisavós, mulheres fortes e obstinadas, que de maneira zelosa e devotada enfrentavam o desafio do cuidado do lar e das famílias”

 

FOI UMA LONGA TRAJETÓRIA PERCORRIDA PELA MULHER ATÉ AQUI?

"Dia 8 de Março é um dia de celebração, mas também de mobilização e reflexão. É inegável que hoje ocupamos espaços nos diversos cenários da sociedade, mas foi um caminho longo e desafiador que não começou em nossa geração, essa luta remonta de nossas avós e bisavós, mulheres fortes e obstinadas, que de maneira zelosa e devotada enfrentavam o desafio do cuidado do lar e das famílias muitas vezes sufocando aptidões e capacidades por viverem como coadjuvantes numa estrutura social patriarcal. Mas gradativamente durante a história, muitas de nós se recusaram a ficar à sombra da sociedade machista, e com ações arrojadas abriram os caminhos que hoje estamos trilhando; certamente somos a materialização do desejo dessas mulheres.

Eu particularmente vi minha avó materna, mulher terna e resiliente que gerou, cuidou de 13 filhos e de um marido enfermo ser um grande exemplo para minha mãe. Ela, por sua vez, uma mulher extremamente sábia e inteligente, que estudou até onde foi possível para a época. Ela é uma dessas mulheres com mente vanguardista que mesmo não tendo realizando o seu sonho de ser médica, influenciou a mim e a meu irmão sempre usando uma máxima: "se você algo fizer, o tempo passa. Se não fizer nada o tempo passará do mesmo jeito, então faça!". Sempre com o apoio de meu pai, ela se desdobrou para sermos independentes em todos os sentidos: financeiro e emocional. É lógico que em alguns aspectos de minha educação houve sim uma parcela castradora, mas convenhamos que seria impossível não haver, pois apesar de tudo, estávamos inseridos numa sociedade que ainda cobrava posturas das garotas, coisas que eu não via sendo exigida dos meninos, porém chagara a minha vez de lutar pelo meu espaço e meus ideais, ela me deu os instrumentos para isso, e sou muito grata. 


QUAIS MULHERES LHE INSPIRARAM?

"Eu poderia citar personalidades de diversas áreas, pesquisadoras, escritoras e tantas outras mulheres, mas, sem dúvida minhas maiores inspirações vieram delas: minha avó e minha mãe pois a maior inspiração vem realmente do exemplo.

Elas eram mulheres fortes com grande potencial emocional e intelectual, mas impossibilitadas de concretizarem seus anseios naquele tempo. Então, eu sou a materialização dos desejos delas; elas me deram condições para isso, fui direcionada e capacitada para escolher meu próprio caminho.

Sou da geração que abriu definitivamente o caminho para que as jovens mulheres de hoje encontrassem um cenário melhor. Mas a caminhada continua, a conquista da mulher está sendo construída dia após dia. São vitórias que devem ser comemoradas, cada mulher que conclui sua trajetória acadêmica, cada mulher que consegue alcançar sua estabilidade pessoal, social e profissional indica que estamos no caminho certo”.

 

AINDA HÁ MUITAS PERDAS?

Sim ainda há, perdemos quando mulheres sofrem violência Física, perdemos quando somos subjugadas, perdemos quando sofremos violência psicológica, quando somos desrespeitadas ou desvalorizadas profissionalmente (é sabido que no mundo coorporativo, infelizmente, ainda há uma predominância masculina com diferenças salariais substanciais para exercício do mesmo cargo)

Então vivemos a dicotomia de perdas e ganhos, sendo assim nosso posicionamento diário em busca desse respeito e igualdade é imperativo.



É PRECISO TRAZER À TONA ASSUNTOS DIFÍCEIS?

“É preciso tocar em feridas. Quando falamos de nossa condição feminina e em como somos vistas e “avaliadas”. Quando jovens somos objetificadas, mas ao envelhecermos querem nos subtrair, nos tornar invisíveis, somos alvos do etarismo, postura que mais uma vez invalida a capacidade de um ser humano, por puro preconceito.

Como podemos perceber há um grande contrassenso, por um lado nos tornamos uma sociedade digitalizada e globalizada, mas nos esquecemos um do outro. Mudamos nossos conceitos para coisas e não para pessoas, e isso põe em dúvida o nosso avanço enquanto civilização.”

 


AS MULHERES GERAM E COMO TAL NÃO DEVERIAM  SER  ENFRAQUECIDAS?

“As mulheres geram! Tudo começa através da mulher. Então, é inaceitável esse machismo implícito que incita a competição entre nós, isso nos tem enfraquecido.  É preciso avançar enquanto gênero. A mulher precisa praticar o conceito de sororidade, é um grande erro pessoas que tem os mesmos ideais e precisam atingir os mesmos objetivos, ficarem presas a conceitos arcaicos que nos foram incutidos por séculos. Devemos sim nos apoiar mutuamente até atingirmos a complementaridade e igualdade de dignidade uns perante os outros.”

 

COMO VÊ ESSA QUESTÃO DO GENERO?

“Para o futuro gostaria de sentir que nossa luta não foi em vão, queremos ver a continuidade de tudo isso, ver a mulher no lugar que ela merece, não apenas por ser mulher, mas por ser uma pessoa capaz de ocupar e atuar com propriedade em qualquer cenário. Temos de nos enxergar apenas e unicamente como seres humanos e que juntos podemos fazer um mundo melhor.

 

TEM SE REALIZADO NA ODONTOLOGIA E NO SERVIÇO PÚBLICO?

Para mim a Odontologia foi um divisor de águas; atuei exclusivamente em meu consultório por 08 anos, me moldei como uma boa cirurgiã-dentista generalista e me orgulho disso. Mas foi na Odontologia pública que me encontrei completamente. Atuando no serviço público, senti meu universo profissional se ampliando e precisei aprender e entender o meu papel nele. E esse papel é fazer a diferença na vida das pessoas; ter a consciência que para a maioria delas, o SUS é a única oportunidade de obter tratamento e cuidados em saúde bucal. Aprendi que olhar ser humano de uma forma integral e interagir de forma interprofissional é caminho único para se obter sucesso em nossas ações em saúde.

Procuro honrar o que me propus a fazer. Atuar na saúde é sempre uma doação tanto pessoal quanto profissional e é transformador.


EXPECTATIVA PARA O FUTURO?

O futuro cai muito no terreno da subjetividade. Eu aprendi na caminhada desta vida, a viver um dia de cada vez, estar plena e completa naquele dia, dar o meu melhor, por mim e por todos que me circundam em cada situação que se apresenta em cada momento. Para mim o futuro é construído de presentes bem vividos, como diz o poeta: "é caminhando que se faz o caminho". Um dia de cada vez, a gente vai aprendendo e ensinando humildemente, com o que temos na bagagem, fruto do aprendizado que a vida nos deu". 


Publicado em 08/03/2024.

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