Odontologia do Esporte

Muitas são as oportunidades no mercado ainda com carência de especialistas, Dr. Danilo Lattaro

A Odontologia do Esporte vem se consolidando como uma área estratégica na promoção da saúde, prevenção de lesões e otimização da performance atlética. Muito além do atendimento a traumas orofaciais, essa especialidade integra o cuidado bucal ao rendimento físico, à recuperação muscular e ao bem-estar geral dos atletas, profissionais ou amadores. Para falar sobre a importância dessa atuação multidisciplinar e o crescente espaço da Odontologia do Esporte no cenário esportivo e científico, conversamos com o Dr. Danilo Henrique Lattaro, referência em Odontologia do Esporte.

O prof. Lattaro é graduado em Odontologia pela FORP-USP, especialista em Periodontia e em Odontologia do Esporte pela USP, doutorando em Biologia Oral pela USP, professor convidado da Especialização em Odontologia do Esporte da FOUSP, diretor da Academia Brasileira de Odontologia do Esporte - ABROE (triênio 23-25), membro da Câmara Técnica de Odontologia do Esporte do CROSP (biênios 20-21 e 24-25), além de ser dentista colaborador do Botafogo-SP.

“As oportunidades de mercado para os profissionais de Odontologia do Esporte são inúmeras. Desde atendimento mais especializado a atletas amadores, como corridas de rua, de academias de musculação, crossfit e academias de lutas, até atendimento de atletas de alto rendimento, mesmo em clubes federativos ou de futebol”, salienta io professor Lattaro, acrescentando que por ser uma especialidade recente, o mercado ainda está com déficit de profissionais especialistas.  Abaixo na íntegra as suas colocações. 

 

ENTREVISTA NA ÍNTEGRA:

Para começarmos, como o senhor define a Odontologia do Esporte e qual é o papel do cirurgião-dentista dentro das equipes esportivas atualmente?
Prof.  Danilo Lattaro: Primeiramente gostaria de agradecer o convite e o espaço para falarmos sobre essa especialidade tão importante que é a odontologia do esporte, ainda pouco conhecida, mesmo dentre os cirurgiões-dentistas. E nada melhor para definir o que é Odontologia do Esporte do que a própria resolução do CFO 160/2015 no seu art.4, que a reconheceu como especialidade definindo assim: É a área de atuação do cirurgião-dentista que inclui segmentos teóricos e práticos da Odontologia, com o objetivo de investigar, prevenir, tratar, reabilitar e compreender a influência das doenças da cavidade bucal no desempenho dos atletas profissionais e amadores, com a finalidade de melhorar o rendimento esportivo e prevenir lesões, considerando as particularidades fisiológicas dos atletas, a modalidade que praticam e as regras do esporte. Sobre nosso papel dentro da equipe multidisciplinar que faz parte de todo o staff do atleta, seja individual ou em clubes, estamos agora construindo pontes e nos inserindo neste contexto. Temos a Medicina do esporte, a Nutrição esportiva, a Fisioterapia do esporte, Psicologia esportiva, Fisiologistas, Educadores Físicos, Massagistas e por que a Odontologia estava fora deste contexto, se diversos problemas de saúde bucal podem inferir em problemas de saúde geral? Aqui está o nosso papel: fazer parte da equipe que cuida da saúde do atleta como um todo!


A saúde bucal pode interferir diretamente no desempenho físico do atleta? Quais são os principais impactos clínicos observados na prática esportiva?
Prof. Danilo Lattaro: Atualmente, o grande foco está na inflamação que pode afetar de diversas formas o funcionamento do organismo. E nada melhor para exemplificar isto, como as doenças de perfil infecto-inflamatório bucais, sejam as doenças periodontais, endodônticas, entre outras. Quem nunca ouviu falar sobre endocardite bacteriana proveniente de infecções bucais? E sobre a influência das doenças periodontais em problemas pulmonares, articulares, diabetes? O atleta, para atingir seu máximo rendimento, precisa estar com seu corpo em "pleno funcionamento" e qualquer interferência pode impactar em atingir seu melhor desempenho.


Em relação aos traumas orofaciais, qual é a real incidência dessas lesões no esporte e quais modalidades exigem maior atenção preventiva?
Prof. Danilo Lattaro: Os traumas orofaciais no esporte ainda são tratados como acidentes e na verdade eles não são! Os traumas já são esperados! Sabemos que em algum momento um atleta, por exemplo de futebol, sairá da partida com um lábio lacerado, um dente fraturado ou mesmo as vezes avulsionado, ou com um nariz fraturado. Vemos isso todos os anos nos noticiários esportivos! E essas incidências são reais, principalmente em esportes de contato. E por que não se dá a devida atenção a este problema? Infelizmente, somente alguns esportes de luta preconizam o uso de aparatos de proteção bucal, mas qualquer esporte que envolva contato exige essa atenção! Sempre comento com meus pacientes atletas: Qual o valor (não somente financeiro) de uma avulsão de um incisivo central no decorrer de sua vida? A odontologia pode e deve contribuir neste aspecto, com os protetores bucais, minimizando lesões intraorais e os protetores faciais, também conhecidos como máscaras faciais, que os atletas usam após alguma fratura óssea de face, para ter seu retorno as suas atividades de maneira mais rápida e segura. E sim, o protetor facial também é de competência do cirurgião-dentista.


Os protetores bucais ainda são vistos por muitos atletas como desconfortáveis ou dispensáveis. Quais são os principais mitos e verdades sobre o uso desses dispositivos?
Prof. Rodrigo Lattaro: Isso ainda se deve muito pela desinformação.Desinformação essa do atleta, das pessoas no entorno do atleta, sejam familiares, treinadores, staff e mesmo a nós cirurgiões-dentistas. Muito se fala que os protetores atrapalham a fala, deglutição, ingestão de líquidos, ficam "se soltando" a todo momento. Mas com certeza isso se deve pelo uso dos protetores genéricos, termo ajustáveis comprados em lojas esportivas, sem adaptação alguma. Totalmente diferente dos protetores bucais individualizados confeccionados por nós, cirurgiões dentistas.


Qual a diferença entre os protetores bucais industrializados, termo ajustáveis e os confeccionados de forma individualizada e personalizada em consultório odontológico?
Prof. Danilo Lattaro: Os protetores bucais termo ajustáveis, geralmente vendidos em lojas esportivas em tamanho único, necessitam serem aquecidos e moldados pelo próprio paciente à sua arcada. É evidente que um protetor deste não irá ter adaptação nem espessura de material corretos, permitindo um desconforto grande e até mesmo nenhuma proteção contra traumas. Já os protetores individualizados, confeccionados através de molde e modelo da arcada do atleta, em material, espessura e adaptações precisas, trazem a proteção necessária e esperada aos possíveis traumas que o atleta está sujeito. E além de tudo, podem ser personalizados, com escritas, símbolos e o que mais o paciente desejar.


Existem protocolos específicos para a confecção dos protetores bucais em atletas profissionais e amadores? 
Prof. Danilo Lattaro: Sim, o protetor bucal tem um desenho, uma extensão e uma espessura corretas e adequadas para a finalidade que ele se propõe. De acordo com a literatura temos uma espessura mínima indicada para a correta proteção, sendo que maiores espessuras podem também trazer desconforto. Existem ainda algumas modalidades esportivas que não permitem protetores bucais coloridos, como o Taekwondo por exemplo, que limita ao uso de brancos ou transparentes sem nenhuma personalização. Portanto, o conhecimento do cirurgião dentista sobre as características do protetor bucal e o esporte que pratica são fundamentais.

 

 

Como a oclusão dentária e o ajuste correto do protetor bucal podem influenciar fatores como respiração, postura, equilíbrio e redução de tensões musculares?
Prof. Danilo Lattaro: Existem muitos estudos em andamento na Odontologia do Esporte, com muitos assuntos ainda em necessidade de maior e robusta comprovação científica, até mesmo pela pouca "idade" da especialidade. E estes temas se enquadram nesta situação. Ainda são controversos os estudos sobre estes assuntos, sendo que de tal maneira não podemos afirmar que este ou aquele dispositivo possa melhorar postura, equilíbrio etc. Sobre a respiração, desde que confeccionado de forma adequada, e até mesmo por anteriorizar a postura mandibular, podemos considerar, mas não como promessa de melhora. Agora, o ajuste correto é imprescindível até mesmo para o conforto do paciente ao falar, deglutir, ingerir líquidos e na retenção e estabilidade deste aparato.


No acompanhamento de atletas de alto rendimento, com que frequência o protetor bucal deve ser reavaliado ou substituído?
Prof. Danilo Lattaro: A reavaliação do protetor bucal deve ser feita em intervalos constantes e regulares, para se detectar possíveis desgastes, falta de adaptação ou falhas que possam influenciar na sua capacidade protetora. Diversos parâmetros são avaliados e um dentista com experiência e capacitação na confecção deste dispositivo está apto a recomendar a sua substituição por um novo.


Na sua experiência como dentista colaborador de equipe esportiva, quais são os erros mais comuns cometidos pelos atletas em relação ao uso e à conservação dos protetores bucais?
Prof. Danilo Lattaro: Os atletas de modo geral são muito reticentes no uso de dispositivos de proteção intraoral no geral, pelo receio de desconforto, como já discutimos anteriormente. Informações quanto a correta forma de inserção e remoção do aparato e a não retirada constante em meio a atividade física devem ser muito bem orientados. A conservação do protetor é feita com higienização e acondicionamentos adequados, não podendo ficar exposto ao calor excessivo devido ao fato de ser um dispositivo confeccionado com material termoplástico.


Como funciona a atuação integrada da Odontologia do Esporte com médicos, fisioterapeutas, nutricionistas e preparadores físicos dentro do clube ou centro de treinamento?
Essa integração é fundamental não somente para atletas de clubes, entidades, federações, mas também para atletas individuais ou mesmo amadores que procuram um melhor rendimento. Todas as áreas de saúde que ficam no entorno do atleta devem estar interligadas e conectadas, com constantes trocas de informações para uma avaliação, um atendimento e um tratamento integral ao atleta. A saúde não deve ser tratada em fatias de um todo e sim de forma global.


Do ponto de vista de mercado e formação profissional, quais são as oportunidades e os desafios para o cirurgião-dentista que deseja atuar na Odontologia do Esporte hoje?
Prof. Danilo Lattaro: As oportunidades de mercado para os profissionais de Odontologia do Esporte são inúmeras. Desde atendimento mais especializado a atletas amadores, como corridas de rua, de academias de musculação, crossfit e academias de lutas, até atendimento de atletas de alto rendimento, mesmo em clubes federativos ou de futebol. E por ser uma especialidade recente, o mercado ainda está com déficit de profissionais especialistas nesta área, sendo uma ótima oportunidade para quem quer se inserir neste contexto. Sobre os desafios eu ainda apontaria a desconfiança, devido a falta de informação, mesmo da própria comunidade odontológica, sobre a especialidade.


Para finalizar, que recomendações o senhor deixaria para atletas, treinadores e profissionais da saúde sobre a importância da prevenção e do cuidado odontológico no esporte?
Prof. Danilo Lattaro: O cuidado odontológico nunca deve ser negligenciado ou entregue em segundo plano. Como já citei acima, diversos problemas odontológicos podem afetar o desempenho físico do atleta. Por outro lado, devido a rotina diferente de alimentação, treinamento, imunidade etc., o atleta pode refletir na boca o aparecimento de lesões de caráter digamos quase ocupacional, como por exemplo o apertamento dentário no momento de se fazer o levantamento de peso, ou o maior consumo de alimentos ácidos ou açucarados, como géis de carboidrato e bebidas esportivas. Atletas de competições oficiais também estão sujeitos aos exames antidoping, e diversas substâncias aplicadas ou prescritas por nós, cirurgiões dentistas, podem levar o atleta ao doping positivo. A pergunta é: estamos preparados para fazer este diagnóstico diferencial e atuar com estes pacientes em nossa prática clínica de forma correta e segura?

 

Publicado em 02/03/2026.

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