Março teve ações no Dia Internacional da Mulher e no Dia Mundial da Saúde Bucal

Sobre a evolução da mulher na Odontologia, os avanços da Dentística e a Saúde Pública, entrevista com a Profa. Dra. Patrícia Laguna Roselino

Duas datas simbólicas marcam o mês de março: o Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, e o Dia Mundial da Saúde Bucal, em 20 de março. Enquanto a primeira reforça a luta histórica das mulheres por igualdade de direitos, reconhecimento profissional e participação plena na sociedade, a segunda chama a atenção para a importância da prevenção e da promoção da saúde oral como parte essencial da saúde integral.

Nesse contexto, a trajetória da Dra. Patrícia Laguna Roselino traduz a intersecção entre essas duas pautas. Com sólida atuação na saúde coletiva e na formação de novos profissionais, ela construiu uma carreira pautada pelo compromisso com a ciência, a educação e o atendimento de qualidade à população.

Graduada em Odontologia pela Universidade de Ribeirão Preto, especialista em Dentística Restauradora pela UNICAMP, mestre e doutora em Promoção da Saúde pela Universidade de Franca, Patrícia Roselino é docente na graduação há 25 anos e atualmente coordena o Curso de Dentística Restauradora da APCD/FAOA-RP, acumulando ampla experiência acadêmica e clínica.

Nesta entrevista, ela analisa os avanços da presença feminina na profissão, os desafios ainda existentes e o papel estratégico da Odontologia, especialmente da Dentística Restauradora e na promoção em saúde coletiva.


ENTREVISTA

Revista APCD-Ribeirão:  A Odontologia é hoje uma das profissões com maior presença feminina. Como a senhora avalia a evolução da participação das mulheres na área ao longo das últimas décadas?
Patrícia Roselino: A Odontologia passou por uma transformação histórica nas últimas décadas. Se antes a presença feminina era minoritária, hoje somos maioria na profissão. Mas o avanço mais significativo não é apenas quantitativo — é qualitativo. As mulheres assumiram protagonismo na clínica, na docência, na pesquisa e na gestão. Hoje participamos ativamente da construção científica e da liderança institucional. Ainda existem desafios relacionados à valorização e ao reconhecimento em posições estratégicas, mas a mulher cirurgiã-dentista contemporânea é tecnicamente preparada, cientificamente ativa e cada vez mais protagonista do próprio espaço.

Revista APCD-Ribeirão:  Em sua trajetória acadêmica e clínica, enfrentou desafios na profissão por ser mulher?
Patrícia Roselino: Toda trajetória sólida exige preparo, consistência e resiliência. Ao longo da minha carreira, o maior desafio sempre foi equilibrar múltiplas responsabilidades com excelência — clínica, docência, pesquisa e gestão. Mais do que enfrentar barreiras explícitas, muitas vezes o desafio esteve em demonstrar continuamente competência técnica e científica. Isso nos fortalece. Aprendemos que autoridade não se impõe — se constrói, dia após dia, com conhecimento e entrega.

Revista APCD-Ribeirão: Como equilibrar carreira, atualização científica  e vida pessoal em uma profissão tão exigente?
Patrícia Roselino: A Odontologia exige atualização permanente, precisão técnica e um elevado senso de responsabilidade ética. É uma profissão que demanda presença integral — intelectual, manual e emocional. Por isso, o equilíbrio entre carreira e vida pessoal não é estático; ele é dinâmico e, muitas vezes, desafiador. Exige organização, disciplina e, sobretudo, clareza de propósito. Na vida real, nem sempre é simples conciliar todas as esferas. Há momentos em que a profissão exige mais de nós, com cursos, atendimentos e atualização constante. Em outros, a vida pessoal nos chama com mais intensidade e nos convida a desacelerar e reorganizar prioridades. Esse movimento faz parte de uma trajetória profissional longa e consciente. 
Quando existe paixão pelo que se faz, a dedicação deixa de ser apenas esforço e passa a ser um compromisso genuíno com a excelência. Ao mesmo tempo, compreender que qualidade de vida, tempo com a família e cuidado com a própria saúde, são indispensáveis, é essencial para sustentar uma carreira consistente, ética e produtiva ao longo dos anos.

Revista APCD-Ribeirão: No contexto do Dia Mundial da Saúde Bucal, qual é o papel da Odontologia na promoção da saúde coletiva e na redução das desigualdades sociais?
Patrícia Roselino: O Dia Mundial da Saúde Bucal nos convida a ampliar o olhar para além da prevenção individual e refletir sobre o papel estratégico da Odontologia na promoção da saúde coletiva. A saúde bucal não pode ser compreendida de forma isolada; ela está diretamente relacionada à qualidade de vida, à autoestima, à inserção social e às condições sistêmicas do indivíduo.
No Brasil, avançamos significativamente com a inserção da Odontologia na atenção básica e com a consolidação de políticas públicas que ampliaram o acesso ao cuidado. Entretanto, ainda enfrentamos desigualdades regionais e socioeconômicas que impactam diretamente a continuidade do atendimento e a cultura de prevenção. Nesse cenário, a Odontologia exerce um papel fundamental na redução dessas desigualdades, especialmente quando atua integrada às demais áreas da saúde e investe em educação permanente. A promoção da saúde coletiva exige não apenas atendimento clínico resolutivo, mas também estratégias educativas capazes de gerar autonomia e transformação social.
Ao longo da minha trajetória, inclusive em operações do Projeto Rondon como coordenadora de equipe, pude vivenciar a importância da capacitação de multiplicadores locais em saúde. Formar profissionais e agentes comunitários para que o conhecimento permaneça nas comunidades é uma das formas mais eficazes de ampliar o alcance das ações e consolidar mudanças sustentáveis. Mais do que tratar dentes, a Odontologia tem o compromisso de promover saúde, dignidade e equidade. E é essa visão ampliada que deve nortear nossa atuação contemporânea.

Revista APCD-Ribeirão:  Quais ainda são os principais desafios para ampliar o acesso à saúde bucal no contexto da saúde pública?
Patrícia Roselino: Ampliar o acesso à saúde bucal no Brasil envolve desafios estruturais, sociais e também culturais. Houve avanços importantes nas últimas décadas, especialmente com a inserção da Odontologia na atenção básica, mas ainda existe um caminho significativo a ser percorrido para que o atendimento seja realmente universal, contínuo e resolutivo.
Um dos principais desafios está na manutenção e no fortalecimento das políticas públicas voltadas à saúde bucal, garantindo financiamento adequado, estrutura física, materiais de qualidade e equipes capacitadas. Não se trata apenas de ampliar o número de atendimentos, mas de assegurar continuidade do cuidado, com foco em prevenção, diagnóstico precoce e tratamentos restauradores que devolvam função e qualidade de vida. Outro ponto essencial é a redução das desigualdades regionais. Em muitas localidades, especialmente nas áreas mais vulneráveis, o acesso ainda é limitado e frequentemente restrito a atendimentos emergenciais. Para mudar esse cenário, é necessário integrar a saúde bucal de forma efetiva às demais áreas da saúde, fortalecendo o trabalho multiprofissional e a visão de cuidado integral.
Também é fundamental investir na valorização e na atualização constante dos profissionais que atuam na rede pública, oferecendo condições para a aplicação de técnicas modernas e resolutivas. Quando a Odontologia pública atua com qualidade, planejamento e continuidade, ela deixa de ser apenas assistencial e passa a ser verdadeiramente transformadora na promoção da saúde coletiva.

Revista APCD-RP: Como a saúde coletiva pode contribuir para reduzir desigualdades no atendimento odontológico?
Patrícia Roselino: A saúde coletiva amplia o olhar sobre o paciente e permite compreender que as necessidades em saúde não são iguais para todos. Ao considerar fatores sociais, econômicos e culturais, ela possibilita a construção de estratégias mais justas e eficazes de cuidado. Nesse contexto, surge a possibilidade real de promover equidade — ou seja, oferecer mais a quem mais precisa, respeitando as diferentes realidades e vulnerabilidades. A Odontologia, quando inserida nessa lógica, deixa de atuar apenas de forma reparadora e passa a promover saúde de maneira mais inclusiva e transformadora.
Ao integrar prevenção, educação e atendimento clínico dentro de políticas públicas consistentes, a saúde coletiva contribui para reduzir desigualdades e ampliar o acesso a tratamentos de qualidade, fortalecendo a saúde bucal como parte essencial da saúde integral.

Revista APCD-RP: Que estratégias são fundamentais para integrar ações preventivas, educativas e clínicas no atendimento à população?
Patrícia Roselino: A integração entre prevenção, educação e tratamento clínico exige planejamento contínuo e uma visão ampliada de cuidado. Não se trata apenas de realizar procedimentos, mas de construir uma cultura de saúde. Estratégias eficazes envolvem programas educativos permanentes, atuação multiprofissional e fortalecimento da atenção básica como porta de entrada do sistema. O atendimento clínico deve ser resolutivo, mas também educativo, permitindo que o paciente compreenda seu papel na manutenção da própria saúde.
Quando o profissional associa orientação, prevenção e tratamento dentro de uma mesma abordagem, promove não apenas a recuperação da saúde bucal, mas a autonomia do paciente. Esse modelo integrado é o que sustenta resultados mais duradouros e uma verdadeira promoção de saúde, e isso deve e pode ser incluído tanto na saúde pública quanto nos atendimentos privados. 

Revista APCD-RP: A Dentística Restauradora passou por transformações significativas nos últimos anos. Quais avanços considera mais impactantes?
Patrícia Roselino: A Dentística Restauradora vive um momento de grande evolução científica e tecnológica. O desenvolvimento de sistemas adesivos mais eficazes, resinas compostas com propriedades ópticas e mecânicas superiores e a consolidação de técnicas minimamente invasivas transformaram profundamente a prática clínica.
Hoje trabalhamos com o conceito de biomimetismo, buscando reproduzir as características naturais dos dentes com máxima preservação de estrutura dental. A previsibilidade estética e funcional alcançada permite resultados mais conservadores, duradouros e naturais, elevando o padrão de excelência dos tratamentos restauradores. Outro avanço importante é a integração entre ciência dos materiais, fotografia clínica e planejamento digital, que elevou o padrão de excelência e segurança dos tratamentos restauradores.
Entretanto, esses avanços também trazem consigo a necessidade constante de atualização profissional. A rápida evolução dos materiais, das técnicas e dos protocolos clínicos exige que o cirurgião-dentista esteja em permanente aperfeiçoamento. A educação continuada torna-se, portanto, indispensável para que o profissional acompanhe essas transformações, incorpore tecnologias de forma segura e ofereça ao paciente tratamentos baseados em evidência científica e alto nível técnico.

Revista APCD-RP: Como a Dentística Restauradora dialoga com outras especialidades, como Prótese, Endodontia e HOF?
Patrícia Roselino: A Odontologia contemporânea é essencialmente interdisciplinar, e a Dentística Restauradora ocupa um papel central nesse contexto. Ela dialoga diretamente com especialidades como Prótese, Endodontia, Periodontia e Harmonização Orofacial, participando ativamente do planejamento global dos casos e contribuindo para resultados mais completos e previsíveis. A reabilitação estética e funcional do paciente exige integração entre forma, função e harmonia facial. Um tratamento restaurador bem conduzido considera não apenas a anatomia dental, mas também oclusão, saúde periodontal, estética gengival e proporções faciais, promovendo equilíbrio entre estética e funcionalidade.
Um exemplo claro dessa integração é o planejamento de facetas em resina associado à aplicação de toxina botulínica. Enquanto as facetas restauram forma, cor e proporção dental, a toxina pode contribuir para o equilíbrio muscular e suavização de linhas de expressão, promovendo harmonia do sorriso e do terço inferior da face. Esse conjunto de abordagens, quando bem indicado e planejado, impacta diretamente na autoestima e na confiança do paciente.  Essa visão integrada permite alcançar resultados mais naturais, duradouros e individualizados, elevando a qualidade do atendimento e reforçando o papel da Odontologia como promotora de saúde, bem-estar e qualidade de vida.

Revista APCD-RP: Existe espaço para a aplicação de técnicas modernas de Dentística Restauradora na rede pública?
Patrícia Roselino: Existe espaço e, sobretudo, necessidade. A aplicação de técnicas adesivas contemporâneas e restauradoras minimamente invasivas na rede pública contribui para tratamentos mais conservadores e duradouros. Com protocolos bem definidos e capacitação profissional contínua, é possível utilizar materiais e técnicas atuais mesmo em contextos de maior limitação de recursos. Investir em atualização técnica e em materiais de qualidade impacta diretamente na longevidade dos tratamentos e na redução de retrabalhos.
A Odontologia praticada na rede pública pode e deve evoluir junto com a ciência, oferecendo à população tratamentos dignos, resolutivos e baseados em evidências.

Revista APCD-RP: Qual é a proposta pedagógica do Curso de Dentística Restauradora da APCD Ribeirão?
Patrícia Roselino: A proposta pedagógica do curso está fundamentada na formação clínica sólida, atualizada e alinhada à Odontologia contemporânea. O foco é capacitar o cirurgião-dentista para um planejamento restaurador criterioso, baseado em diagnóstico preciso, seleção adequada de materiais e execução técnica eficiente. Enfatizamos a importância do planejamento como etapa central para a previsibilidade dos resultados estéticos e funcionais. O aluno é estimulado a compreender cada fase do tratamento — da análise inicial à finalização — incorporando novas técnicas, materiais restauradores modernos e protocolos clínicos atuais.
Além disso, trabalhamos formas de execução eficazes, que tragam segurança ao profissional no dia a dia clínico, com previsibilidade e excelência. O objetivo é formar profissionais preparados para tomar decisões clínicas seguras, executar com precisão e acompanhar as constantes evoluções da Dentística Estética e Restauradora

Revista APCD-RP: O curso prioriza uma abordagem mais clínica, científica ou integrada?
Patrícia Roselino: A abordagem é essencialmente integrada. A proposta do curso é unir ciência e prática clínica de forma consistente, permitindo que o aluno compreenda os fundamentos biológicos e científicos dos materiais e técnicas, ao mesmo tempo em que desenvolve habilidade prática e segurança na execução. Mais do que apresentar protocolos, buscamos que o profissional entenda o porquê de cada etapa, suas indicações e limitações. Essa integração entre conhecimento teórico e prática supervisionada possibilita uma atuação mais consciente, previsível e ética.
Como resultado, o cirurgião-dentista conclui o curso mais seguro para a execução das técnicas no dia a dia clínico, com maior domínio dos materiais, melhor capacidade de planejamento e confiança para entregar tratamentos restauradores estéticos e funcionais com qualidade e consistência.

Revista APCD-RP: Quais diferenciais o curso oferece em relação à formação prática e à atualização tecnológica?
Patrícia Roselino: Entre os principais diferenciais do curso está a forte ênfase na prática clínica supervisionada, associada à atualização constante em técnicas e materiais restauradores. O aluno tem contato direto com protocolos contemporâneos, tecnologias atuais e metodologias que refletem a realidade da Odontologia estética e restauradora moderna. Trabalhamos com planejamento detalhado dos casos, seleção criteriosa de materiais e desenvolvimento de formas de execução eficazes, sempre com acompanhamento próximo e orientação individualizada. A proposta é que o aluno compreenda todas as etapas do processo restaurador, desde o diagnóstico até o acabamento final, adquirindo maior previsibilidade nos resultados.
Além disso, o curso valoriza a integração entre conhecimento científico e aplicação clínica, permitindo que o profissional se mantenha atualizado e seguro diante das constantes evoluções da área. O objetivo é formar cirurgiões-dentistas mais confiantes, críticos e preparados para aplicar, no dia a dia clínico, uma Dentística Restauradora contemporânea, precisa e de alto nível, que promova não só estética, mas função e promova saúde aos nossos pacientes. 


CURSO DE DENTÍSTICA RESTAURADORA DA APCD-FAOA RIBEIRÃO                                                                                                   Coordenadora: Dra. Patrícia Roselino. Informações e inscrições: (16) 3630 0711.


Publicado em 20/03/2026.

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