Avanços da Odontologia Hospitalar: entrevista com Dra. Cristiane Bataglion
Especialidade é reconhecida como área essencial no cuidado multidisciplinar de pacientes internados, especialmente em hospitais de alta complexidade

A Odontologia Hospitalar, nos últimos anos, ganhou maior reconhecimento como área essencial no cuidado multidisciplinar de pacientes internados, especialmente em hospitais de alta complexidade. A presença do cirurgião-dentista no ambiente hospitalar permite: Prevenção e controle de infecções: cuidados com a saúde bucal reduzem riscos de pneumonia associada à ventilação mecânica e outras complicações sistêmicas. Apoio a pacientes com necessidades especiais: atendimento seguro para pacientes imunossuprimidos, oncológicos, transplantados e com doenças crônicas. Integração multiprofissional: atuação junto a médicos, enfermeiros, fisioterapeutas entre outros profissionais melhora o prognóstico geral. E Procedimentos de alta complexidade: cirurgias bucomaxilofaciais, manejo de traumas faciais, tratamentos de infecções graves e intervenções em UTI.
A expansão da Odontologia Hospitalar demanda capacitação específica, protocolos bem definidos e conscientização sobre seu papel na redução de morbidade, tempo de internação e custos hospitalares. É uma área estratégica para garantir cuidado integral, humanizado e seguro.
Para falar sobre a Odontologia Hospitalar e sua contribuição e evolução atualmente, em entrevista exclusiva, a Dra. Cristiane Aparecida Nogueira Bataglion.
A Dra. Cristiane Bataglion é Cirurgiã-Dentista, atua no serviço de Odontologia e Estomatologia do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto-USP. Mestre e Doutora pela Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto-USP. Especialista em Pacientes com Necessidades Especiais e em Odontologia Hospitalar, atua também com Oclusão, Disfunção Temporomandibular e Dor Orofacial e Odontologia do Sono. Preceptora no Programa de Residência Multiprofissional em Atenção Integral a Saúde e no Programa de Residência em Atenção ao Câncer do HCFMRP-USP.
ENTREVISTA
Revista APCD-RP: Quais são os principais casos odontológicos que chegam ao hospital e exigem intervenção imediata?
Dra. Cristiane Bataglion: Os principais casos que chegam para nossa equipe no ambulatório que exigem intervenção imediata são os casos de Abscessos dentários, celulites e outras infecções bacterianas que podem causar dor intensa, inchaço e febre, necessitando de tratamento com antibióticos e, em alguns casos, a drenagem. Hemorragias que podem ocorrer após procedimento dentário cirúrgico ou devido a traumas de pacientes que fazem uso de anticoagulante ou que têm discrasias sanguíneas. As discrasias podem ser primárias (hereditárias, como hemofilia e doença de Von Willebrand) ou secundárias (adquiridas, resultantes de outras comorbidades, medicamentos, infecções ou toxinas)
Como o atendimento odontológico hospitalar contribui para reduzir complicações sistêmicas em pacientes internados?
Dra. Cristiane Bataglion: No atendimento odontológico do paciente comprometido sistemicamente em ambiente hospitalar são fundamentais o diagnóstico e remoção de focos infecciosos bucais para que sejam eliminados a infecção e os potenciais focos de inflamação oral. A infecção odontogênica é uma grande fonte produtora de toxinas bacterianas e de mediadores inflamatórios, que, estando presentes podem alcançar a corrente sanguínea do paciente e atuar a distância em outros órgãos e receptores celulares modificando inúmeras funções e respostas celulares, exacerbando os sinais e sintomas de várias doenças e diminuindo a resposta ao tratamento médico realizado. O exame clinico minucioso, junto com a elaboração de um plano de tratamento adequado são essenciais para a adequação do meio bucal, impactando positivamente sobre a resposta ao tratamento médico que o paciente está sendo submetido, assim como para prevenção da sepse de origem da cavidade oral.
Que avanços tecnológicos e de protocolos mais impactaram sua rotina nos últimos anos?
Dra. Cristiane Bataglion: Em 2015 quando fui contratada no HC estavam na transição do prontuário de papel para o eletrônico, o que facilitou muito o atendimento, pois conseguimos ter acesso as evoluções de todas as clinicas em que o paciente é atendido, como também checar e solicitar exames complementares e as prescrições de medicamentos. Os protocolos ao longo do tempo vão se modificando através das pesquisas e da nossa experiencia clínica , como por exemplo antes quando o paciente fazia uso de 2 antiagregantes plaquetários suspendíamos 1 para a realização de procedimentos dentários invasivos, através de uma pesquisa clínica que realizamos em nosso ambulatório verificamos que esta suspensão não era necessária por não termos complicações pós operatórias expressivas.
De que forma o trabalho integrado com outras especialidades médicas ocorre no HC?
Dra. Cristiane Bataglion: No HC temos o pedido de interconsulta no qual é realizado pelas especialidades médicas e não medicas solicitando atendimento ao paciente, estando ele internado ou de ambulatório. Nosso atendimento é realizado para os paciente com comprometimento sistêmico que inviabiliza o atendimento fora de âmbito hospitalar. Recebemos solicitações de atendimento por motivos de queixas álgicas, por má condição dentaria, a realização de biópsias, avaliações e tratamento de lesões orais (mucosite, lesões virais, fúngicas ,bacterianas, traumáticas), presença de hemorragias orais, para avaliar presença de focos infecciosos dentários prévios a cirurgias cardíacas, pré transplantes, quimioterapia, radioterapia de cabeça e pescoço, a liberação de medicações como por exemplo ácido zoledrônico, imunossupressores, dentre outras.
Nos fale sobre a pneumonia associada à ventilação mecânica.
Dra. Cristiane Bataglion: Durante a internação em UTI os problemas bucais são intensificados devido a dependência de cuidados do paciente. A presença do tubo de intubação orotraqueal, a exposição à microbiota patogênica da UTI, a exposição a múltiplos antibióticos de amplo espectro, acumulo de secreções e secreções a salivares em orofaringe e alta tensão de oxigênio fazem com que a cavidade oral seja um nicho para colonização e multiplicação de micoorganismos, tornando essencial para o desenvolvimento de infecções respiratórias, como a Pneumonia Associda á Ventilação Mecânica (PAVM). Sua prevenção é de extrema importância devido a alta taxa de mortalidade e morbidade e aumento dos custos na assistência em saúde. Para a prevenção de infecções há um conjunto de práticas baseadas em evidencias que quando executadas melhoram os resultados para os pacientes. Uma prática muito importante é a realização da higiene da cavidade oral. Na literatura existem diversos questionamentos em relação aos produtos que podem ser utilizados, a frequência, a técnica de realização e dispositivos empregados. A escolha deve ser realizada de acordo com base no perfil dos pacientes que estão na UTI, o recurso socioeconômico disponível, a facilidade de aplicação, a simplicidade da técnica e o treinamento da equipe que é muito importante.
Como é feito o atendimento a pacientes com necessidades especiais ou imunossuprimidos?
Dra. Cristiane Bataglion: O atendimento a um paciente com necessidades especiais deve ser individualizado de acordo com a necessidade de cada indivíduo podendo exigir adaptação do ambiente, dos equipamentos, da definição do plano de tratamento, dos materiais de consumo e dos instrumentos. A condição sistêmica do paciente irá nos nortear para a elaboração do plano de tratamento e condutas que devemos tomar prévias a realização do tratamento odontológico com segurança. Temos que ter o conhecimento e aplicação de protocolos clínicos bem definidos de acordo com o comprometimento sistêmico de cada indivíduo. No paciente imunossuprimido a nossa prioridade será o controle de infecções orais podendo ser elas fúngicas, virais e bacterianas. A odontologia no hospital é exercida por meio de cuidados preventivos, de diagnósticos e curativos, considerando a interconexão entre a saúde bucal e a saúde geral do organismo, reconhecendo que infecções e inflamações orais podem agravar quadros crônicos e que as doenças sistêmicas podem ter manifestações na cavidade oral.
Que resultados já foram observados na qualidade de vida e recuperação dos pacientes com esse tipo de atendimento?
Dra. Cristiane Bataglion: A manifestação oral de doenças sistêmicas pode se dar por meio de lesões ulceradas advindas de doenças autoimunes, mucosites orais devido ao tratamento oncológico, lesões fúngicas, estomatites orais advindas de estomatoxicidade medicamentosa, lesões virais proporcionando importante sintomatologias dolorosas e dificuldade na alimentação. O nosso manejo no tratamento destas lesões com a instituição do protocolo mais adequado para cada caso é de fundamental importância, obtemos resultados muito positivos promovendo a cicatrização destas lesões e analgesia , trazendo conforto , qualidade de vida, melhorando o prognóstico do paciente e diminuindo possíveis agravos e complicações. O atendimento que realizamos no hospital é gratificante pois nos permite oferecer conforto, cuidado e a cada palavra de acolhimento e cada olhar de atenção fazem toda diferença na vida do paciente, transformando dias difíceis em momentos de esperança.
Qual a importância da formação especializada para atuação nesse campo?
Dra.Cristiane Bataglion:A formação especializada é essencial para que exista uma assistência odontológica segura á beira leito de internação. Para a atuação em odontologia hospitalar é fundamental o cirurgião dentista ter o conhecimento sobre a rotina hospitalar e os protocolos assistenciais a pacientes comprometidos sistemicamente, experiencia e habilidade para o atendimento de pacientes graves, conhecimento de patologia sistêmica, farmacologia e das vias de administração de medicamentos, semiologia e resolução das complicações e intercorrências que podem ocorrer. Para encontrar cursos de residência em Odontologia Hospitalar, deve-se buscar os editais de Residência Multiprofissional em Saúde para a área de Odontologia, que são publicados anualmente.
Como a população pode compreender melhor a relevância da Odontologia Hospitalar?
Dra. Cristiane Bataglion: A higiene bucal e os cuidados odontológicos em hospitais reduzem a proliferação de bactérias, fungos e vírus, prevenindo infecções pulmonares (pneumonia) e outras complicações sistêmicas que podem começar na cavidade oral, diminuindo assim o tempo de internação, inclusive em UTIs. A cavidade bucal é um reflexo da saúde geral portanto a presença do dentista nos hospitais contribui para a saúde sistêmica dos pacientes especialmente para aqueles com doenças crónicas, com necessidades especiais e em tratamento oncológico devolvendo uma melhor qualidade de vida.
Revista APCD Ribeirão
edição: outubro 2025
Publicado em 30/10/2025.

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