Artigo Científico - Eficácia do tratamento endodôntico não cirúrgico, em lesão periapical extensa

Autoria: Luciana Maira Machado, Nader Abou Hamine, Eloá Cristina Bicego-Pereira, Lucas David Galvini

Artigo Científico - Eficácia do tratamento endodôntico não cirúrgico, em lesão periapical extensa

O tratamento endodôntico visa a preservação dos dentes, por meio do tratamento das patologias pulpares e periapicais. A principal via para o desenvolvimento da patologia pulpar e periapical é a cárie, que estende-se pela polpa, gerando necrose pulpar. Quando esta não é tratada adequadamente pode disseminar para os tecidos periapicais, resultando em lesões inflamatórias crônicas, associada a infecção microbiana persistente.

Radiograficamente, as lesões periapicais apresentam áreas radiolúcidas na região periapical, refletindo a reabsorção óssea induzida pelo processo inflamatório. Estas alterações periapicais destacam-se: granuloma periapical, cisto periapical radicular e o abscesso periapical crônico, cuja diferenciação é possível através de exame histopatológico.

A presença de microorganismos nos granulomas periapicais e cistos periapicais é associada a microorganismos anaeróbios estritos e facultativos, predominando as bactérias Gram-negativas. Estudos demonstram a presença de Porphyromonas, Prevotella, Fusobacterium nucleatum, Peptostreptococcus, Actinomyces e Enterococcus faecalis. A liberação de subprodutos bacterianos como endotoxinas (lipopolissacarídeos), mantem a inflamação periapical e ativação de mecanismos de reabsorção óssea.

Tradicionalmente, lesões periapicais extensas foram indicadas para complementação cirúrgica, sobretudo em suspeitas de cisto radicular verdadeiro. No entanto, a literatura demonstra que a maioria das lesões periapicais possui potencial de neoformação óssea, respondendo favoravelmente a terapia endodôntica focada na eliminação das infecções intracanais (Ricucci et al., 2020).

O tratamento endodôntico não cirúrgico baseia-se na tríade endodôntica intracanal, através da limpeza, modelagem e obturação adequadas, utilizando-se de instrumentação criteriosa, irrigantes químicos e quando indicado, medicação intracanal. A medicação intracanal amplamente utilizada é a base de hidróxido de cálcio, devido às propriedades antimicrobianas, neutralização de endotoxinas bacterianas e estimulo ao reparo dos tecidos periapicais.

Realizamos o tratamento endodôntico não cirúrgico do dente 12, submetido a abertura coronária, instrumentação, medicação intracanal, obturação, seguida de proservação por três anos, evidenciando regressão da lesão periapical e reparo progressivo, reforçando a previsibilidade do tratamento endodôntico convencional como primeira escolha.

Paciente do sexo feminino, com histórico de dor previa no dente 12, a qual havia procurado atendimento em posto no sistema único de saúde (SUS), relatando abertura coronária, com inserção de medicação intracanal não especificada, orientada a procurar outro profissional para conclusão do tratamento endodôntico.

Após este atendimento inicial, relatou cessação da dor, e após 1 ano deste primeiro atendimento, procurou novo atendimento com alteração da coloração gengival, e presença recorrente de elevação na mucosa, com drenagem espontânea de secreção purulenta em determinados períodos.

Em exame clínico, observou-se escurecimento coronário, com coloração amarronzada, compatível com necrose pulpar. A mucosa periapical apresentava-se levemente avermelhada, com histórico compatível com trajeto fistuloso. Os testes de vitalidade pulpar foram negativos, e ao exame radiográfico evidenciado área radiolúcida periapical extensa, associada ao ápice do dente 12 (Figura 1ª). Foi realizado o protocolo seguinte:

Primeira sessão: Abertura coronária, irrigação abundante com hipoclorito de sódio 1%, instrumentação rotatória com sistema ProT (MK Life), até a lima F3 (30.09), finalizando com soro fisiológico. Ao final da instrumentação foi realizada uma lavagem com soro fisiológico associado ao hidróxido de cálcio PA, seguida da inserção da medicação intracanal, UltraCal (Ultradent) e selamento provisório (Figura 1B).

Segunda sessão: Após 10 dias, foi realizada a remoção da medicação intracanal e nova instrumentação do canal radicular, utilizando irrigação abundante com hipoclorito de sódio 1% e instrumentação manual com limas tipo K até a lima #70, visando maior desbridamento do canal radicular. Procedeu-se à irrigação com soro fisiológico seguida da irrigação final com a mistura de soro fisiológico e hidróxido de cálcio PA, seguida da inserção da medicação intracanal UltraCal (Ultradent) e selamento provisório (Figura 1C).

Terceira sessão: Após a remoção da medicação intracanal, observou-se ausência de exsudato intranal, bem como condições clínicas favoráveis à obturação. Previamente a obturação, foi realizada a irrigação com hipoclorito de sódio 1%, com agitação do irrigante por 5 minutos, potencializando a ação antimicrobiana e limpeza. Foi seguido pela secagem do canal com cones de papel absorvente estéreis. Para a obturação, utilizou-se cone de guta percha #70 associado a cones acessórios, e cimento obturador Endofill, por meio da técnica de termoplastificação da guta-percha, seguida pela condensação à frio. Ao térmico da obturação, realizou-se restauração provisória com ionômero de vidro (Figura 1D).

Quarta sessão: Realizou-se a restauração definitiva do dente 12, com resina composta na cor WO para auxiliar a mascarar a coloração do dente pré existente, promovendo também adequada reabilitação funcional do dente tratado.

Proservação: A paciente foi acompanhada periodicamente ao longo dos anos, para proservação clínico-radiografico do caso. Não foi observado sinais clínicos de dor, sensibilidade, edema ou recidiva de trajeto fistuloso. Exames radiográficos evidenciaram regressão progressiva da lesão periapical, com reparo ósseo completo, em 3 anos de acompanhamento (Figura 1E, 1F).

Conclui-se que atualmente pelas métodos e instrumentos recentes na Endodontia é possível promover reparo de lesões periapicais extensas, sendo possível o reparo ósseo por meio do tratamento endodôntico convencional evitando procedimento cirúrgico nos pacientes.

 

Figura 1. A- Aspecto radiográfico inicial do dente 12, com evidência de lesão periapical extensa. B- Imagem radiográfica após instrumentação e medicação intracanal. C- Imagem radiográfica após nova instrumentação e inserção de nova medicação intracanal. D- Aspecto radiográfico após obturação endodôntica do dente 12. E- Proservação radiográfica após 6 meses da obturação. F- Proservação radiográfica após 3 anos da obturação.    

 

Referências bibliográficas.
Nair PNR. Pathogenesis of apical periodontitis and the causes of endodontic failures. Crit Rev Oral Biol Med. 2004;15(6):348-81.
Ricucci, D.; Roças, I.N.; Hernandez, S.; Siqueira, J.F., Jr. “True”Versus “Bay”Apical Cysts: Clinical, Radiological,
Histopathologic, and Histobacteriologic Features. J. Endod. 2020, 46, 1217–1227.
Siqueira JF Jr, Rôças IN. Microbiology and treatment of endodontic infections. In: Ørstavik D,
Pitt Ford TR, editors. Essential endodontology: prevention and treatment of apical periodontitis. 2nd ed.
Oxford: Blackwell Munksgaard; 2008. p. 135-85.


PUBLICAÇÃO
Revista APCD-RP
Edição de maio 2026


Publicado em 01/06/2026.

Cursos Cirúrgicos
Cursos clínicos
Especialização

(16) 3630-0711

Rua Casemiro de Abreu, 660 - Ribeirão Preto (SP)
Ops... Preencha corretamente o formulário.
Obrigado! Seu formulário de inscrição foi encaminhado com sucesso.